Reportagem especial de Raí Maltose

Cinco e meia da manhã. O ronco da furadeira, tal qual um galo mecânico cosmopolita, anuncia que Natanael Pelvis (nome fictício), de 24 anos, recomeça a sua luta diária no submundo do crime. Os vizinhos fingem não perceber o que acontece ali do outro lado do muro. As garrafas roubadas nas caçambas da coleta seletiva da rua, porém, denunciam: Pelvis fabrica cerveja em casa, e a vende.

-Tudo começou com o hobby. Fiz o curso do [Leopardo] Golfinho e fazia minhas brincadeiras com os amigos. Eles me falaram para provar IPA, para fazer IPA, comecei a me tornar lupulomaníaco. Foi então que um amigo me apresentou a Firestone Double Jack seguida de uma Stone Ruination. Fiquei viciado em IPA importada. Era Torpedo, 90 Minutes rolando dia e noite… Depois, o dinheiro começou a não dar mais e parti para as brasileiras mesmo – contou ele, em entrevista exclusivíssima ao CERVEJONALISTA.

Nataniel, também conhecido como Papaizão da Fervura, se viu no fundo poço. Perdeu todo o seu dinheiro, não tinha sequer mais para fazer suas produções. A vida foi dura com ele, que chegou ao ponto de beber IPA nacional sem dry hopping. Perdeu todos os amigos, que não queriam beber Fadel Fadel IPA ou Bebassa Índia. Aviltado pelos beersnobs, marginalizado pela sociedade cervejeira, Nataniel passou a frequentar a Lupulândia, e lá conheceu uma má influência que o levou para o caminho do crime.

-Ele chegou e falou para eu vender as minhas cervejas. Foi chocante ouvir isso, assim. Sempre fiz cerveja só por amor. Mas a vontade de alimentar o vício foi maior e eu cedi. Não pagaria imposto, não pagaria aluguel, e poderia vender no Facebook. Com margem de 568% livre, teria dinheiro até para Ballast Point Habanero e 120 Minutes.

Dona Sendra Ropin, mãe putativa de Nataniel, não sabe mais o que fazer, pois o plano de saúde Unimerd não cobre dependência de lúpulo. Ela ora dia e noite para que a alma do Nataniel seja liberta deste encosto.

-Outro dia acordei na madrugada e vi meu bebê colocando erva no azeite de casa. Perguntei se era a erva do capeta, ele disse que não, mas não acreditei. Ele nunca mais foi o mesmo. Hoje ele passa horas seguidas na internet, e fala que está apaixonado por uma tal de Citra.

Nataniel, porém, segue suas atividades normalmente com a certeza da impunidade, agindo em plena luz do dia.

-Você vende uma garrafa, duas, começa a dar uma euforia. Só a brassagem, para mim, não dá mais onda. Preciso vender pelo menos cinco garrafas por dia. Tem mês que chego a vender mais de 100 litros.

O envase rudimentar, o calor intenso e a garagem de casa sempre molhada não desanimam Nataniel. Ele garante que o produto é de primeira, com maltes importados e lúpulos selecionados. Às 15h30, termina sua segunda brassagem do dia e parte para as entregas. Papaizão sai numa viagem que ele sabe que pode ser a última em liberdade, sonhando com tratamento para a sua doença. Meninos, como Nataniel, e homens de todas as idades vivem à margem da sociedade praticando esta vida bandida. Uma geração que o povo brasileiro perde para o crime por culpa de vício na erva. Uma geração a apenas um passo de drogas mais pesadas ainda: o hidromel.

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