Com poucos cliques, chega-se ao anúncio em uma comunidade do Facebock: “Westvleteren 12: 200 reais, poucas unidades”. Pouco abaixo no mesmo grupo, outro post oferece Dogfish Head 120 minutes: 130 reais. Choque? Curiosidade? Vício? O submundo cervejeiro de ostentação e luxo do tráfico de cervejas é o tema da segunda reportagem investigativa da série Vida Bandida, do nosso repórter investigativo Raí Maltose, para o Cervejonalista.

A trilha do crime organizado começa com singelas viagens de férias nos Estados Unidos ou na Europa. Nas belas fotos de cervejas raras no Instragão, porém, não se vê o interesse sórdido. São malas e mais malas lotadas de cervejas “raras” (a maioria bem comunzinha no exterior) chegando ao Brasil, passando pela Alfândega misturadas em roupas de marca e perfumes da melhores grifes mundiais. São as famosas “Malas Amigas”.

As mulas, como são chamados os viajantes, geralmente já saem com pedidos fechados de bares ou pessoas físicas dependentes destas preciosidades internacionais. As margens de lucro se compraram ao tráfico de drogas e venda de cerveja artesanal sem nota.

O sistema é complexo. Nossa equipe trabalhou à paisana e se misturou ao submundo da cerveja artesanal brasileira. O nível de organização surpreende, com diversos receptadores localizados em bares da moda. Depois de entregue, a “mula” termina o seu trabalho e embarca em uma nova viagem, num ciclo que parece não ter fim.

No retorno é hora de embolsar os polpudos lucros. Comprada a 3 euros na Bélgica (menos de 15 reais), uma Westvleteren 12 chega a atingir mais de 200 reais no mercado negro. Especializado em venda online, um amigo do repórter, que pediu para não ter a identidade revelada, relata um pouco da realidade glamourosa:

-É muito fácil, as pessoas compram qualquer coisa que não venda no Brasil. Elas precisam alimentar as redes sociais, dar check in no Untappd na Pantera, contar para os amigos que beberam aquelas raridades. Muitas vezes, a cerveja chega já vendida. São caixas e mais caixas entrando e saindo todos os dias, vindas de diversos continentes.

O homem em questão mantém a identidade preservada e é muito discreto, mas boatos na internet dão conta que ele é o verdadeiro dono da lancha atribuída ao filho do Lula. Ao longo da apuração da nossa reportagem, encontramos diversas pessoas ficando ricas vendendo a long neck de Sierra Nevada Torpedo IPA (menos de 2 obamas nos EUA, o equivalente a 8 dilmas) no Brasil por cerca de 50 reais. O negociante clandestino explica sua política pessoal:

-O negócio só funciona se você não consome. Senão, fica viciado e todo seu lucro do ano vai embora em meia dúzia de Bourbon County e uma Pliny The Elder vencida. Muito nos entristece ver a chegada de chope Stone no Brasil na legalidade. É mais uma vez o governo dificultando a vida de quem trabalha clandestinamente com seriedade nesse país.

Os consumidores não conseguem se livrar do vício. É o que relata um usuário com mais de 2 mil check-ins no Untappd na Pantera, mais de metade de cervejas estrangeiras. O detalhe: sem ter viajado para o exterior uma vez sequer.

-Você acorda, tá lá de pijama e vê um anúncio de uma cerveja que não vende no Brasil, que quase ninguém tem acesso… É impossível resistir. Comecei comprando uma cerveja caseira aqui, um copo com marca de bar ali… Aí, um dia vi uma Dogfish Head anunciada. Depois veio uma Stone. Quando vi, tinha trocado minha TV de LED em duas garrafas de Three Floyds Dark Lord.

Explorando os dependentes, há um mercado crescendo e enriquecendo. Jovens de classe média agindo livremente em plena luz dos bares, nos monitores de computador, nos grupos de WhatsAPA. O submundo da cerveja traz fortuna a uns, miséria a outros. O comandante de um dos cartéis de “maleiros amigos”, denuncia uma das vítimas, é um sommelier e instrutor de cursos de cerveja, que vem sendo investigado pelas autoridades.

-Todo mundo sabe, e ele nem esconde. Mas ninguém faz nada. Ninguém mexe com ele porque ele organiza evento, dá curso, degustação, faz carta de cerveja pra bar e restaurante… – afirma o rapaz, que teve de desfazer de seu apartamento para quitar a dívidas contraídas para desfrutar de uma garrafa de Samuel Adams Utopias.

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