Aromas frescos de frutas, especiarias, flores. Uma pungência de lúpulos acima do normal quando servida no copo durante um encontro da CCZS (Cervochatos Concentrados na Zitologia de Serviço) me deixou com uma pulga atrás da orelha (há relatos de que a pulga era de um cachorro que um confrade levou, mas eu nego). Em breve conversa com o produtor, uma revelação bombástica: ele usou Galaxy e Simcoe na receita, lúpulos impossíveis de serem encontrados no mercado nacional. Onde há fumaça há fogo, e eu, Raí Maltose, o maior repórter investigativo do Brasil depois de Gil Gomes, parti numa busca perigosa e ardilosa para desvendar o submundo do tráfico de lúpulos raros e frescos.

A rede de traficantes atua em encontros de cervejeiros caseiros por todo Brasil e já está chegando ao ponto de aparecer em cervejas de produção comercial. Pacotes prateados sem selo de importação circulam livremente nestes encontros. Como revela Vincent Ennial, que prefere ser chamado apenas de facilitador de lúpulos:

-Começou com um pacote de 50g de Citra quando voltei da Disney com meus filhos, para consumo próprio. Ninguém tinha ele aqui na época. Com essa receita ganhei três concursos de cerveja caseira, e comecei a receber propostas por insumos de qualidade. Ficaram sabendo que a parada que eu trazia era da boa.

Vincent revelou que faz viagens de dois em dois meses para Miami, garantindo fornecimento até para cervejarias ciganas no estado, mas nega qualquer envolvimento com a prima proibida do lúpulo.

-Hoje, o mercado carioca está super aquecido. Até 2017, todo cervejeiro caseiro carioca terá sua marca cigana no mercado. Meu objetivo é continuar fornecendo para eles, pois muitos fizeram fama nas confrarias justamente com suas receitas turbinadas pelos lúpulos raros. Eles não sabem fazer cerveja sem dry hopping Nelson Sauvin, de Galaxy… É um grande diferencial de mercado.

O cervejeiro Anselmo Zaic é cliente desde 2014. Visitei sua residência e pude provar NE IPAs caseiras com lúpulo Experimental N239. O fermento veio por Vincent, numa nova fase da operação, agora também contrabandeando seres vivos. Entre um copo e outro, Anselmo nos contou a mudança de comportamento:

-Eu era só mais um a levar cervejas paras os encontros cheias de isovalérico e acetaldeído. Mas o Vincent me apresentou um outro mundo. Primeiro, ele me falou sobre maturação, que foi a porta de entrada para querer insumos que um outro confrade não tinha. Cheguei ao ponto de recentemente encomendar um growler de The Alchemist. Tive que vender meu sofá para beber, mas valeu cada centavo. Pretendo recuperar rapidamente meu patrimônio pois mês que vem lanço minha marca cigana, a 171Cervejeiros, e rapidamente ficarei rico como todos que investiram nesse mercado.

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