Cansado dos perigos da vida no BOPE, o Capitão Roberto Nascimento decidiu investir numa paixão pessoal: a produção caseira de cerveja. Empolgado com a possibilidade de angariar aprendizes, Nascimento abriu o curso Capitão da Brassagem. Com o slogan “A concorrência eu Botto no saco”, o curso já contou com uma turma lotada na primeira edição, que testemunhou a bravura do professor linha dura.

Um dos intrépidos repórteres d’O Cervejonalista, que pediu para permanecer anônimo por medo de represálias, registrou os principais momentos do curso.

O Capitão Nascimento começou explicando aos alunos o conceito de cerveja:

-O conceito de cerveja, do espanhol “cerveza“, do galego “cervexa“, do francês “cervoise“, do latim “cervesia“…

Segundo o repórter, após uma parte técnica que durou cerca de meia hora e da moagem dos grãos, os alunos foram repreendidos duramente pelo Capitão.

-Senhores! Parece que o senhor Zero-Meia está cansado de mexer esse mosto. O senhor está cansado, senhor Zero-Meia?

-Não, senhor!

-O senhor sabe o que vai acontecer com o seu mosto se o senhor parar de mexer essa pá, senhor Zero-Meia? Essa porra desse mosto vai ficar todo caramelizado, senhor Zero-Meia. O senhor acha, senhor Zero-Meia, que mosto caramelizado em excesso é bom pra Imperial Stout?!?

-Não, capitão!

-Então, senhor Zero-Meia, o senhor trate de mexer esta porra desta pá, senão TODOS os seus colegas de classe vão ter que beber esta merda deste mosto caramelizado em temperatura de fervura! Entendido, senhor Zero-Meia?

-Sim, senhor!

Outra cena de tensão marcou o início da aula, quando o aluno Denis Novato, que pretende começar a fazer cerveja em casa e compareceu trajando camisa da Stone Brewing, reclamou de ter queimado a mão ao segurar a alça da panela.

-Tira essa camisa! Tira essa barba de hipster! O senhor não é homebrew. O senhor é moleque! – observou Nascimento.

Logo, o Capitão reconheceu um aluno que postava muito no Abreviadores de Cerveja perguntando se a Ashby Weiss era boa.

-Aqui no meu curso, senhor Zero-Um, nós não gostamos de paga-pau de Ambev. O senhor sabe por que nós não gostamos de paga-pau da Ambev no meu curso, senhor Zero-Um? Porque gente que nem o senhor, que entrou nisso por modinha, é que está acabando com o movimento artesanal, senhor Zero-Um! O senhor acha que ninguém aqui sabe que o senhor bebe Brahma Extra Red Lager? O senhor acha que ninguém aqui sabe que o senhor fez check-in no Untappd dizendo que Bela Rosa é uma ótima Witbier?!? Sabe por que o senhor é o Zero-Um?!? Porque o senhor vai ser o primeiro a pedir pra sair! Pede pra sair! Pede pra sair! – bradou o Capitão Nascimento, enquanto cobria o aluno Zero-Um de tapas.

-Eu desisto! Eu desisto! – gritou o aluno, chorando, o que provocou comemoração de Nascimento e dos instrutores assistentes.

O clima foi ficando (ainda) mais pesado à medida que o dia foi avançando. Na hora de medir a densidade do Mosto, o aluno Vinte-Três alegou que havia esquecido o densímetro no carro.

-E o senhor vai medir essa densidade como sem o seu densímetro, senhor Vinte-Três?!? Com o dedo? Como, a essa altura do campeonato, o senhor esquece o densímetro no carro, Vinte-Três?!? A porra da Imperial Stout vai ficar com 5%ABV e o senhor vai fazer o que com o densímetro? Vai enfiar no cu?!?!? Porra, quero ter vinte anos de curso! – ponderou Nascimento.

Quase chegando ao fim da parte prática da aula, o Capitão Nascimento se dirigiu ao xerife da turma:

-Xerife, a turma está pronta para a fermentação?

-Sim, senhor!

-Quanto tempo o senhor acha que precisa pra fermentar esse mosto, Xerife?

-Sete dias tá bom, senhor!

-Xerife, o senhor é um fanfarrão! Sete dias é o caralho! Os senhores terão dez minutos para fermentar esse mosto!

O susto foi grande, porém os alunos tiveram a chance de uma refermentação na garrafa, o que ainda gerou uma grande confusão no momento do priming. Ao ver um saco de açúcar, Nascimento deu tapa na cara de dois alunos perguntando de quem era a carga. Depois do mal entendido já esclarecido, uma garrafa explodiu, provocando a primeira reação bem humorada do professor.

-Os senhores sabem como devia se chamar essa fermentação aí? Fermentação Iraque! – brincou.

Após o curso, o repórter d’O Cervejonalista foi internado numa clínica para tratamento de stress pós-traumático.

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